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Política Inimigos Íntimos

Nomes novos de legendas da esquerda se engalfinham pela herança política de Lula em vida.

Queda de Dilma fez emergir um PT e uma esquerda sem identidade

02/08/2020 11h08 Atualizada há 8 meses
Por: Míriam Moraes

Os atores estavam no palco, alguns veteranos nos papeis principais, atores coadjuvantes e figurantes (aqueles sem fala). 

E eis que o teatro é invadido e tiram de lá o roteirista e o diretor de cena. O que fazem os atores? Permanecem em seus papeis para prosseguir com o espetáculo até a volta do diretor e roteirista? 

Não. Figurantes decidem entrar em primeiro plano e improvisar falas. Os veteranos se espantam com a confusão e acabam no plano de fundo, enquanto os principiantes correm para a frente recitando falas desconexas para o público.

Foi o que se viu na esquerda do Brasil desde a queda de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. 

Os veteranos da esquerda foram afastados, e nomes como Manuela D'Ávila, Boulos, Fernando Haddad, Flávio Dino, o eterno bardo que entrava vez ou outra no palco (Ciro Gomes) assumem o protagonismo e ninguém mais sabe que texto está em cartaz, pois todos apresentam inovações sem nenhuma conexão com o projeto de país que estava sendo implantado desde 2002. 

Nesta semana três eventos retratam o caos no palco:

Flávio Dino, antes sem expressão levado ao governo do Maranhão por Lula,  acaba de pedir encontro com Bolsonaro para conversar sobre políticas para os trabalhadores, ignorando que a vertente capitalista é meritocrata por natureza. Soa como um judeu pedindo encontro com Hitler para pedir a instalação de ar-condicionado nos fornos dos campos de concentração. 

Haddad, antes apenas um desprestigiado candidato derrotado numa eleição para prefeito, defende mais uma vez a gestão da direita e elogia a substituição do Parque do Anhangabaú por um protótipo da Avenida Paulista em perfeita sintonia com o conceito de espaço urbano a serviço do capital e do transporte individual, formato de cidade para a produção na contra-mão do modelo de cidade humanizada com ampliação dos espaços coletivos. No fundo, apenas mais um dos contantes acenos à direita desde que pisou no palco.

E para completar, Boulos (PSol), aquele que de quem nunca se ouviu falar até aparecer como organizador dos movimentos de rua que alavancaram a derrubada do governo do PT, colocou acertadamente o dedo na ferida ao falar da gestão Haddad (PT) na prefeitura de São Paulo, se contrapondo ao esquecimento da periferia, estatização do serviço público inexplicavelmente ampliada numa gestão petista e a manutenção dos grupos colocados pelos tucanos no comando do transporte coletivo desde 1998. Acertadamente porque Haddad investiu em ciclovias, em melhorar a condição de circulação dos carros particulares mas isentou-se totalmente do gargalo do transporte público.

A retirada de cena de Lula e Dilma foi promovida pela direita, e ao adotar a máxima de que "o show não pode parar" e basta seguir adiante, o espetáculo vem se transformando num show de horrores, o que prova que Política não pode ser entendida como teatro. As mortes que a falta de direcionamento político produz no Brasil não são cênicas, são cada vez em maior número e o show se revela tragédia. 

Era sim para ter parado tudo ou encenado o texto dos mosqueteiros. Em casos de golpe, o lema que funciona é  o "todos por um". No caso, por uma. Os coadjuvantes e figurantes botaram tudo a perder. 

Míriam Moraes é jornalista especializada em jornalismo político, psicanalista, pedagoga e escritora.

 

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