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Sociedade Feminicídio

Feminicídio - Amar é para os fortes.

Quem não está pronto para esperar ou perder, não está pronto para amar.

26/12/2020 14h23 Atualizada há 2 meses
Por: Míriam Moraes
Feminicídio - Amar é para os fortes.

 

No mesmo dia em que o assassinato brutal de uma juíza na frente das filhas que assistiam em profundo desespero, no mínimo duas outras mulheres brasileiras foram assassinadas pela mesma razão: Vítimas de homens fracos que não possuem força interior para viver relações amorosas gratificantes.

A dependência emocional nas mulheres produz um efeito diferente em razão da cultura: As mulheres se imolam, se matam de forma objetiva (através do suicídio) ou simbólica (deixa de viver uma vida plena após o fim da relação). Quem não conhece alguma mulher que depois de perder um amor parou de viver, pensou em se matar ou se atirou na busca de sexo casual com o desejo de vingança, de ferir o outro, embora resulte em feridas na própria autoestima?

Na cultura em que fomos criados, “A mulher sábia constrói o seu lar, mas a que não tem juízo o destrói com as próprias mãos.

Embalada por essa percepção injusta, machista e opressora, a culpa será sempre da mulher. Não importa se o homem é frívolo, fútil, agressivo, mulherengo, alcoólatra… Cabe à mulher suportar ou ter a habilidade de transformar o sapo em príncipe. 

Já na ótica masculina, o homem forte é aquele que domina e comanda o seu meio, a sua propriedade, e não aquele que domina e comanda os próprios instintos ou sentimentos, a própria natureza. Por isso quando contrariados sentem-se no direito de castigar, punir pela “desobediência” a mulher que decide escapar de seu jugo e trilhar outros caminhos.

Se há aqueles que punem, se vingam diante da rejeição com o feminicídio, há também os que além do feminicídio se imolam, matam a mulher e se matam em seguida, uma tentativa de exterminar o vazio que anteveem no futuro de uma vida sem sentido depois de sofrer uma perda amorosa ou ter o ego (auto imagem) ferido quando se sente trocado ou traído. "Seja homem!", muitos dirão, como se a "fraqueza" fosse algo natural no sexo feminino e não uma característica humana a ser trabalhada internamente.

O mito “Romeu e Julieta” produziu grandes estragos, serviu de base da visão romântica sem a devida crítica, exaltando uma suposta falta de sentido para a vida após a perda do amor idealizado. Shakespeare esqueceu de ressaltar a tolice e o imediatismo de duas crianças que se não fosse a precipitação e o imediatismo, a história teria outro fim. Talvez tivessem vivido uma bela história de cumplicidade e companheirismo que terminasse com os dois contando para os netos sobre aquele maluco do Frei Lourenço que bolou um plano tão louco que fez os dois irem  parar nas catatumbas, ao lado de um monte de esqueletos. Ou talvez terminasse com a crise dos 40 anos de Romeu, que para compensar a perda da juventude começasse a espichar os olhos para jovenzinhas, quando Julieta indignada pegaria sua capa e cobraria do Frei um plano melhor.  Ou com uma Julieta saindo das catatumbas já meio desconfiada de que toda aquela “intensidade” dos sentimentos de Romeu pudesse indicar um risco de tragédias futuras, talvez num bairro nobre do Rio de Janeiro às vésperas do Natal… Há uma infinidade de finais possíveis para a mesma história de amor, como acontece na vida real.

O amor não oferece garantias. Ama-se hoje com base nas afinidades do momento que com o passar do tempo e a evolução de um ou outro, ou dos dois, podem se tornar diferenças. Quando o amor acaba, pode até acontecer para os dois ao mesmo tempo, mas como se trata de dois indivíduos distintos por natureza, raramente acontece assim, um dos dois pode ser pego de surpresa pela decisão do outro.

Para aquele que perde o amor e possui força interior, é normal um tempinho de luto, pode demandar um esforço de readaptação à nova rotina, mas é matematicamente impossível que num planeta com 8 bilhões de pessoas exista apenas uma única com os predicados adequados para tocar seu coração. E mais matematicamente impossível que com todos os atrativos da vida não encontre a felicidade em outros estímulos, formas de interação e desafios pessoais, se procurar.

Suplício inenarrável é não poder ficar sozinho”, disse o sábio Dostoievesky.

Tomo a liberdade de complementar com outra citação que invento agora:

Quem não sabe ser feliz sozinho será sempre um risco para si e para o outro”, pois forte é quem aprendeu a ser independente, quem não precisa de muletas ou escoras para caminhar.

Definitivamente, por tudo o que já foi produzido na literatura, nos filmes, teatro, nas experiências que vivenciamos e assistimos ao nosso redor, fica bem claro que o amor que vale a pena é um território onde os fracos não têm vez.
Estar atento para a importância do desenvolvimento da força interior nossa e do outro antes de entrar numa relação e durante o seu desenrolar, construindo, incentivando, colaborando... faz parte da construção do amor que se fortalece com o crescimento mútuo durante a vida em comum. E se não encontrar ressonância em seus esforços, é vital a cautela para garantir as condições de segurança física e emocional caso o castelo venha a ruir. Afinal, agir preventivamente é literalmente questão de sobrevivência, seja ela material ou simbólica.

 

*Míriam Moraes é Psicanalista, jornalista e escritora.

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