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Saúde Imperdível

Muita idade não é sinônimo de Velhice.

O Método Kominsky - Atores de 86 e 76 anos contracenam com mulheres de 70, 60 anos numa série que revira conceitos e pré-conceitos de idade.

13/12/2020 12h17 Atualizada há 4 meses
Por: Míriam Moraes
Muita idade não é sinônimo de Velhice.

 

Não envelhecemos de verdade, apenas copiamos os modelos que nos são dados. 

Ao longo dos anos de estudo da Psicanálise, me debrucei sobre a psique do idoso, interações psicanalíticas com a "terceira idade", todo um arsenal de técnicas e autores para entender a "velhice" e aprender a lidar com seus "portadores". Até me deparar com os orientais e descobrir que as técnicas usadas com os ocidentais não possuem nenhuma serventia para esse povo oriundo de uma cultura a qual não temos lá tanto acesso e não integram o currículo de quase nenhum curso da área. 

Os Orientais simplesmente não envelhecem como nós, do Ocidente. E chega a ser impossível estimar a idade de homens e mulheres que circulam pelas ruas aos 90 anos com cara e jeito de 50.  A descoberta das doferenças culturais embutidas nesse fenômeno fez sentido diante das inúmeras observações que eu já fazia em pacientes: Com uma certa idade, passamos a imitar inconscientemente o gestual, postura corporal, vocal e hábitos de vida que foram nos apresentados ao longo da nossa existência, da infância até chegar a hora e a vez de cada um. Pode ser aquela tia ou avó que ficava horas na cadeira de balanço esperando a morte chegar, ou os nossos pais e até personagens de novela ou cinema.

Entendemos a velhice conforme um modelo que nos é dado e nos adaptamos a ela. 

Daí vem a minha felicidade ao assistir a série O Método Kominsky que passarei a indicar sempre que surgir nos pacientes a preocupação com o passar dos anos. Aos 76 anos, Michael Douglas contracena com Alan Arkin de 86 anos, idade em que muitos já se impacientam com a demora da sinistra de capuz e foice na mão. E engana-se quem pensa que eles fazem simples papéis de "velhos". Eles têm muita idade, assumem que têm, convivem com os dilemas e obstáculos que os anos trazem, mas estão lá dando vida a histórias de perdas, encontros e desencontros amorosos com mulheres de 70 ou 60 anos, problemas financeiros, com filhos, incertezas do futuro, solidão, relacionamentos... dores e delícias de serem o que são.

Um ponto alto da série, que peço licença para entrar com um spoiller que não atrapalha em nada, é quando a filha de um deles vai morar com o namorado quase da idade do pai, aposentado, que tem mais que o dobro da idade dela, desafiando pré-conceitos do pai a respeito de si mesmo. 

Se Michael Douglas é e sempre foi um belo exemplar masculino, apenas esteticamente falando, outros atores da série são barrigudos, carecas, e o próprio Michael Douglas não aparece com pele esticada, talvez tenham acrescentado até algumas rugas para dar veracidade ao personagem. São homens e mulheres lidando com as limitações naturais trazidas pelo tempo e o desgaste da saúde do corpo físico, mas ágeis mentalmente e livres dos principais estereótipos que costumamos adotar como se fossem naturais, quando na verdade são construções mentais que incorporamos. E o melhor: Eles não fazem aqueles tipos alucinados correndo de bar em bar ou de boates torturadoras na esperança de iludir-se com a falsa ideia de juventude. Eles apenas não se curvam ao peso dos anos.

É bem verdade que não estamos falando da realidade das pessoas pobres demais, sofridas demais e sem acesso a recursos de saúde ou cuidados estéticos. Mas aparecem ali figuras como o professor aposentado quase setentão que com sua barriga e calvície não refuta a ideia de entrar num curso de teatro para botar um pezinho nos sonhos que deixou para trás em busca do sustento e estabilidade da vida, coisa que a classe remediada poderia estar fazendo se não vivêssemos mergulhados numa cultura que diz que é hora de parar. Não é. Está longe de ser. 

Pode ser difícil cobrarmos de nós mesmos a atitude e força de ânimo necessárias para desfazer a criação mental de quem se sente no fim da linha. Mas ao se erguer e dar o primeiro passo para fora da zona de conforto, é possível enxergar uma extensão da linha que segue muito ao longe, com altos e baixos, zonas curvas e retilíneas tão extensas que torna impossível enxergar o fim dela como de fato não enxergamos, apenas imaginamos de acordo com a lente que escolhemos colocar nos olhos. 

Super recomendo a série O Método Kominsky. Tem na Netflix. O texto é inteligente, humor afiado, perfeito para repensarmos a nossa existência como um todo e fazer planos para sempre, como tem mesmo que ser.

*Míriam Moraes é Psicanalista, Jornalista e Escritora. 

 

 

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