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Especiais Plenitude

Não é o sexo, é o orgasmo.

Recomendação médica de sexo para melhorar a saúde é equívoco histórico.

27/09/2020 08h49
Por: Míriam Moraes
Não é o sexo, é o orgasmo.

 

Causou um reboliço danado nas redes sociais, tempos atrás, uma postagem de um jovem afirmando que orgasmo é coisa de homem, que as mulheres sentem apenas “uma sensação muito boa” quando transam. 

Embora o rapaz tenha sido alvo de chacotas, os consultórios médicos e psicanalíticos são recheados de casos que apontam o desconhecimento nesse assunto como muito maior do que se pode supor, tanto da parte dos homens quanto das mulheres. 

Ela só me confessou que nunca tinha tido um orgasmo depois que nosso casamento de 12 anos acabou. Eu disse a ela: ‘Mas você gemia, se contorcia...’ A responta: ‘Aprendi nos filmes’.”

Nem sempre a mulher está mentindo quando finge o orgasmo, pode ser um caso de reprodução por desconhecimento, pois acreditam que “a sensação boa é o orgasmo em si” e foram ensinadas pelos filmes a reagir ao prazer com sussurros e gemidos. Não sabem que prazer não é orgasmo.

Durante uma pesquisa de observação em consultórios sobre a capacidade dos profissionais da saúde para abordar a sexualidade, foi registrada a seguinte conversa entre uma ginecologista e sua paciente: 

PACIENTE: Como é o orgasmo?

GINECOLOGISTA: Ah… é difícil explicar. 

PACIENTE: Mas se um dia eu tiver, vou saber que tive?

GINECOLOGISTA: Vai saber sim, com toda certeza. 

O que esse diálogo mostra é que o assunto é tabu também para a classe médica, embora o orgasmo seja recomendado como remédio natural para amenizar cólicas menstruais, reduzir os efeitos da menopausa e equilibrar os hormônios até o fim da vida.

Muitos médicos ainda hoje são injustamente acusados de perversão e até tentativa de sedução quando recomendam “sexo” às mulheres. Isso porque as pacientes acreditam que se trata de alguma insinuação, uma cantada. E a recomendação de fato está errada, um erro com razões históricas, visto que muitas mulheres praticaram sexo a vida inteira sem jamais conhecer o orgasmo, e é o orgasmo e não o sexo que produz as reações hormonais. 

Pesquisas mostram que apenas 29% das mulheres atingem o orgasmo durante a relação sexual, as mais otimistas apontam cerca de 16% pela penetração e as demais por estimulação feita pelo parceiro. Assim, é comum em mulheres dependentes emocionais, vítimas de violência doméstica física ou emocional a afirmação: “Só ele sabe me fazer chegar ao orgasmo”. 

A conclusão é que o tabu em torno da masturbação impede médicos de receitarem o orgasmo, visto que o termo “sexo” remete à relação sexual que remete, por sua vez, a uma busca por parceiros eventuais para mulheres que não estão vivenciando relacionamentos amorosos. Também a recomendação de apetrechos eróticos não ajudam em boa parte dos casos, pois passam a ideia de perversão, sendo repudiados por uma grande maioria.

O pastor de uma conhecida congregação afirma que a igreja demoniza a masturbação porque acredita que se as mulheres descobrirem que podem ter orgasmos sem a necessidade de um parceiro, elas passarão a repudiar o casamento. A visão mostra o quanto é arraigada a ideia utilitarista da mulher na sociedade, tornando o esclarecimento ainda mais necessário para que as mulheres possam manter ou não relações amorosas sem depender delas para o equilíbrio orgânico que o orgasmo ajuda a produzir. A companhia pode ser uma escolha, não um impositivo.

Segundo a psicanalista Mariana Stock, que conduziu ampla pesquisa sobre o tema com mulheres brasileiras, para ter orgasmos a receita é explorar e conhecer o próprio corpo, nada mais.

Em tempos de desencontros intelectuais e com a independência financeira da mulher, que a emancipa em diversos aspectos da vida, é natural que as mulheres não estejam propensas a manter relacionamentos insatisfatórios por simples força da tradição. E se antes o número de casados que se declaravam felizes era maior que o de solteiros, hoje as estatísticas estão mudando e contradizendo o poeta: 

“É possível sim, ser feliz (e mais saudável) sozinho”.

 

*Miriam Moraes é Psicanalista, Pedagoga, Jornalista e Escritora.

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