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Especiais Morte Voluntária

Quero morrer por mim mesma. Posso?

Proposta da Holanda de direito à morte voluntária choca, mas faz pensar.

17/09/2020 20h14 Atualizada há 7 meses
Por: Míriam Moraes
Quero morrer por mim mesma. Posso?

Antes de mais nada, vamos deixar registrado que não estou aqui defendendo coisa alguma, apenas pensando sobre o assunto que mais tememos na vida: A morte. 

Não tenho medo de morrer, o assustador para mim é definhar aos poucos, é estar morta num corpo que respira. E isso não se refere simplesmente ao corpo doente, a morte da minha mãe me revoltou porque embora doente ela queria viver, defendi que ela lutasse até o último minuto, que morresse lutando, e abomino a tal fala: "Você precisa se desligar, permita-se ir...". Acho abominável. Já, inclusive, avisei meus filhos que quero todo mundo gritando pelos corredores do hospital atrás do médico, "Socorro, enfermeira... ajuda aqui"... Deixei claro: Eles que não se atrevam a me mandar pegar túnel luminoso ou ir a lugar nenhum se eu estiver um dia no leito de morte. Isso de "desprendimento da vida" é o tipo de conselho não se dá, pois quem quer ir não precisa de incentivo e para quem não quer, isso apenas fere, magoa, se sente levando o cartão vermelho com a bola rolando ainda no campo. Se me mandarem ir, acabo ficando só pra contrariar. Estão todos avisados.

Entendido esse ponto, vamos ao que interessa: A Holanda, aquele país que permite quase tudo, está debatendo a distribuição gratuita de um comprimido letal, chamado Drion, para pessoas com idade superior a 70 anos que estejam “cansadas de viver”. Percebam: Não se trata da eutanásia em caso de doenças incuráveis, é para os que estão "cansados de viver". Sinistro, não é mesmo?

No entanto, quase todas as razões dos defensores da vida imposta trazem o argumento de que a vida é dom divino, só Deus pode tirar. E aí temos os incoerentes que acreditam que nos casos de doenças incuráveis não é bem assim, nessa hora Deus perde a razão. Então tem hora que só Deus pode e hora que Deus não pode determinar. Sem sentido. Até por que, viver à espera de uma doença incapacitante que se torne incurável para ter o direito de cessar o sofrimento e deixar a vida torna o cenário futuro de quem não quer viver ainda pior, os sofrimentos da alma não são menores que o sofrimento do corpo. 

Mas trabalhando com a possibilidade de tal medicamento ser admitido na Holanda, quantos acima dos 70 anos iriam recorrer a ele? E se no lugar de escolha pessoal, isso se tornasse uma imposição silenciosa do meio familiar, dos genros, noras, sogros dos filhos, e para o horror dos horrores, até dos filhos? Não aumentaria ainda mais a ideia de que o idoso é um peso que pode ou não ser assumido, e que dele deveria partir a iniciativa de se tocar? Não se transformariam muitos idosos vítimas de cuidadores "Capitão Nascimento" com um "pede pra sair!" silencioso no olhar?

De minha parte, pretendo morrer como Maya Angelou, o corpo encontrado na cama ao lado de mais um dos inúmeros livros que escreveu ao longo da vida. Morreu produzindo. Acho lindo. Meu grande desejo na vida é morrer querendo ficar. Ver o sol nascer ou se pôr, olhar noite de lua cheia... Há muitas razões para viver ainda que o corpo não responda com o devido respeito. Há razão na falta que faremos para quem nos ama e mesmo quando não somos mais amados por aqueles que amamos. Talvez os que vivem desejando a morte só venham a entender de fato o que perderiam se a possibilidade da morte deixasse de ser uma possibilidade e se tornasse acessível, uma escolha. Talvez boa parte escolhesse viver, não respirar, mas viver.

E entre tantos devaneios sem nenhum propósito, fica a torcida por ter induzido alguns a pensar no que a sociedade nos impõe como mau agouro: nos dias das nossas mortes. É preciso pensar até para planejar como queremos viver e para querer viver quando a vida for escassa em alegrias externas, para não morrermos porque estamos "cansados de viver". 

Vendo o que se passa hoje na Holanda, tudo indica que em breve isso se tornará sim uma escolha.

*Míriam Moraes é psicanalista, jornalista, pedagoga e escritora. 

 

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