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Especiais Felicidade existe.

Menos alegria, mais felicidade

Quem se contenta com a alegria, raramente encontra a felicidade.

07/09/2020 15h34
Por: Míriam Moraes
Menos alegria, mais felicidade

Muita gente entende alegria como um sinônimo de felicidade. Não é. A começar do dicionário que nunca enganou ninguém, pois define Alegria como "estado de contentamento; regozijo, júbilo, prazer". Felicidade é diferente: "estado de uma consciência plenamente satisfeita, satisfação, bem estar"

A alegria é superestimada em nossa sociedade. O tempo todo somos bombardeados pelo chamado às diversões, entretenimentos, festas, baladas... A alegria é comumente retratada em multidões, é barulhenta, bebidas atrativas, pessoas, movimento, abraços. Mas é frágil, porque as palavras não ditas, uma alteração de humor de quem está presente, uma fagulha de lembrança de mágoa, tristeza ou traição, uma palavra dita, pode colocar a perder a alegria de um segundo para o outro, o riso permanece nos lábios, embotado, amarelo, um disfarce.

Já a felicidade é mais exigente, requintada, refinada. Felicidade coabita facilmente com a tristeza, com as saudades, com recordações felizes ou infelizes, com música ou com o silêncio. Felicidade não depende de companhia, ao contrário, é mais fácil aparecer na solitude. Quanto mais se procura o "outro", mais nos perdemos do "eu", da conexão com o nosso interior. Uma caminhada solitária na praia, na rua, no parque... dirigir sozinho o carro na estrada, um olhar pela janela, um pôr-do-sol... Está ali a consciência dos momentos bons e ruins já vividos, o planos futuros, mas a felicidade é uma satisfação com o presente, com aquele momento, sem expectativas nem rancores, em paz com o que passou e o que virá. É exigente porque depende do "estado de uma consciência plenamente satisfeita", sem o peso das culpas inúteis e dos ressentimentos corrosivos. Ela demanda maturidade emocional. 

Somos desde o nascimento empurrados para as alegrias, o mundo se organiza para produzir e vender alegria, por isso a cultura do grupo no lugar da cultura do indivíduo em tantos cartazes e propagandas. Somos cobrados o tempo todo para estarmos acompanhados e alegres, somos criados sem tempo e sem meta para a felicidade, e quanto mais se cultiva a cultura da diversão e da alegria, menos se compreende a felicidade. Para o alegre, o feliz pode inclusive ser visto como triste, na mesma dinâmica que faz o adolescente na boate, ao som da música eletrônica, imaginar o palco de uma orquestra e se sentir consternado com o tédio que imagina na plateia, pois o estado de "contemplação" não faz parte ainda de seu repertório emocional. Não há como gostar do que não se conhece.

A alegria é interativa; felicidade é individual, interior. A alegria é feita de cristal; a felicidade, de diamante. A alegria tem pontos de lacuna, a felicidade é sensação de plenitude, de estar completo por si mesmo naquele instante. A alegria termina quando terminam os momentos alegres, a felicidade vai fincando e espalhando raízes. E assim como o orgasmo, a felicidade não será compreendida a partir de simples descrição, você só tem como saber como ela é quando acontece. 

Saber que ela existe e pode ser atingida é um bom começo para quem ainda não chegou lá.

*Miriam Moraes - Psicanalista.

 

 

 

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